Friday, May 25, 2007

GOSTO DE GOSTAR DESTAS COISAS



NALDOVELHO

Gosto de dias de chuva,
de preferência os de outono,
cheiro de terra molhada,
vento frio varrendo a cidade,
final de maio e eu suponho,
que continue a chover amanhã.

Gosto de café com conhaque,
cigarrilhas que sejam cubanas,
violoncelo, violino e piano,
música visceral e profana,
bons livros de cabeceira:
Cecília, Drumond e Bandeira.

Gosto de madrugadas desertas
e de saber que embora me doa,
sensibilidade deixou de presente,
coisas preciosas, sagradas,
lembranças, segredos, guardados,
pensamentos, palavras, poemas.

Gosto de gostar destas coisas,
por certo na solidão do meu quarto,
medida exata de nostalgia,
necessária dose de saudade,
janelas e portas sempre abertas
muita poesia no ar.

Saturday, May 19, 2007

MANIA DE POETA



NALDOVELHO

Vontade de esculpir versos,
aparar arestas, excessos,
cortar palavras, algumas,
polir outras, em suma:
dar brilho aos significados.

Mania de poeta
que teima em dissolver lágrimas,
faz tempo, cristalizadas,
ao revelar segredos, guardados,
ao desfazer em nós os nós.

Mania de curandeiro
que cisma em cicatrizar feridas,
que cura entorses, contraturas, gasturas,
gastrite, artrite, colite,
e se duvidar, espinhela caída.

Aperto no peito, então?
Logo-logo, respiração aliviada,
pois toda a aflição e tortura,
vira tema de poema,
no papel, exorcizadas.

Mania de feiticeiro,
mestre em desmanchar teias,
tramas, dramas, coisa feita e ardida
paixões mal resolvidas,
armadilhas da solidão.

Vontade de esculpir versos,
de deixar janelas abertas,
terapeutas da alma que implora,
por caminhos,clareiras, enredos,
que tragam paz ao coração.

Sunday, May 13, 2007

AO AMOR QUE EU NÃO VIVI



NALDOVELHO

Acordar sonolento,
tua perna sobre a minha
e uma tênue luz invasora
a revelar-nos despertos.
Luz do sol, enxerida,
a bisbilhotar nossas vidas.
Manhã cedo de domingo,
preguiçosos confessos.

Queria que a semana
fosse repleta de domingos,
que não houvesse segundas-feiras.
É bom que aqui estejas, por inteira,
aninhada e tão perto.
Já são quase dez horas
e ontem à noite, eu confesso:
fiquei rindo a toa,
já faz tanto tempo.

Melhor fazer um café,
o mês é frio de outono,
já não existe abandono,
já não existem esperas
e embora passados muitos anos,
teu cheiro ainda impera.

Lembra daquele poema
e da eternidade que ele revela?
Pois é! Ainda escuto a mesma música,
Michel Legrand ao piano
e Barbara Streisand ainda questiona:
What are you doing the rest of your life?
Melhor permanecer em meus sonhos.

Thursday, May 10, 2007

PARTIDAS E CHEGADAS



NALDOVELHO

Tenho olhos de perceber
que entre os versos que afloram,
existe dor de partida
que se fez sem despedida.
Quem ontem estava tão perto,
nunca mais se viu por aqui

Tenho olhos de perceber
que apesar do sorriso nos olhos,
existe a lágrima escondida,
chorada pra dentro, doída,
por aqueles que não viveram o sonho
de semear o trigo, colher o pão,
abraçar o amigo e fazer do inimigo um irmão.

Tenho olhos de perceber
que além do ódio dos loucos
a derramar o sangue de muitos,
dói o silêncio dos tolos
e a palavra desencontrada
daqueles que pensam que enxergam,
mas nada conseguem ver.

Tenho olhos de perceber
que entre partidas e chegadas,
reside a verdade dos sábios
materializada na voz dos poetas,
há quem diga que sejam profetas,
anunciando um novo amanhecer.

Wednesday, May 02, 2007

ESTRANHO

NALDOVELHO

Ando por estas ruas como se fosse um estranho.
Tropeço em meio-fios, esbarro em árvores,
confundo esquinas, escorrego e caio
e sem saída num beco escuro, penso:
melhor voltar, recomeçar.

Às vezes converso com as sombras,
pois mal consigo perceber o rosto das pessoas
e assusto-me com o silêncio dos que passam
e não percebem num poema, um detalhe, que seja!

Já não colho flores nos jardins desta cidade,
e os parques desconhecem o riso puro das crianças.
No céu, carregado de nuvens, prenúncio de chuva,
vento frio, muita umidade, pouca visibilidade.

Ando sozinho por estas ruas, já faz tempo.
Busco um sorriso, um olhar, quem sabe?
Uma lágrima de saudade, um abraço de chegada,
uma palavra, um verso, quase nada!

Ao longe percebo pássaros em revoada,
sinal de vida no horizonte, ainda que distante.
Nos templos, portas impedem a minha entrada
e aqueles que se importam, nada podem, aprisionados.

E mais um tropeço, outro beco sem saída.
Já não escrevo mais poemas, desencravo-os,
como se fossem espinhos, ou cacos,
espetados por todo o corpo.

Olhos para os lados e pouco vejo.
Dia nublado, prenúncio de chuva,
tarde cinzenta de outono,
vento frio, pouca visibilidade.

Tuesday, May 01, 2007

ROSA



NALDOVELHO

Esta sensação estranha...
Luz do abajur, faz tempo, queimada,
assim, acesa, do nada?!
A janela do quarto
que teimava em permanecer fechada,
hoje, abusadamente, escancarada!
E este perfume?
Acho que estou ficando louco.

Na cozinha, pratos e talheres lavados.
A comida esquecida no forno: sumiu!
Na sala, móveis arrumados,
tudo limpo, cheiro de alecrim.
Flores em cima da mesa?
Absurdo!

Na estante, livros arrumados,
Cds guardados,
cada um em seu lugar.
Uma samambaia chorona
pendurada no canto da sala...
Não consigo entender.

Pássaros atrevidos
cantam em minha janela,
parece primavera,
mas é abril, outono!

Acho que é um sonho,
pois acabo de escutar sua voz...
Mas como?

Rosa, porque você partiu?


O poema ROSA é baseado em fatos reais, acontecidos, já faz algum tempo.

Conheci um casal, quando mais jovem, Seu Juvenal e Dona Rosa. Eram muito felizes. Tinham dois filhos, um deles, hoje, meu compadre, e a história de amor que vivenciaram foi dessas que a gente só vê em novela, construída em cima de muita luta, muito sofrimento e, principalmente, muita coragem, pois tiveram que romper com todos os laços para poderem ficar juntos. Eram amantíssimos, o carinho e a ternura eram constantes, a ponto de transformar a casa onde viviam, num templo de paz e amor onde adorávamos ficar. Um dia, assim, sem mais nem menos, aos 65 anos, Rosa morreu, num desses infartos fulminantes que sem o menor aviso lhe acometeu.

Daquele dia em diante, Seu Juvenal, homem forte e alegre, numa sombra triste e sem vida se transformou. Dava pena de ver! A casa, antes, um brilho, agora largada, móveis empoeirados, o jardim morto e o velho, costumeiramente de muitas palavras, virou uma pessoa soturna e amargurada. Tomar banho, então, muitas vezes nem tomava! Entregou-se em vida, arrasado pela falta que Rosa lhe fazia.

Seus dois filhos, já casados, e seus netos, toda a semana, iam lá, limpavam tudo, até banho o obrigavam a tomar. Meu compadre sempre relutou em colocá-lo num asilo e o velho, já com 70 anos, não admitia a idéia de ter uma empregada, ou mesmo de ir morar com qualquer um dos filhos, e assim dizia: um dia ela virá me buscar.

Todas as manhãs, em direção ao trabalho, quando por lá passava, levava pão fresquinho e um litro de leite. Janelas sempre fechadas e Seu Juvenal, nem café havia tomado. No meio daquela bagunça, ia eu pro fogão, passava um café bem forte, sentávamos na sala, ainda que empoeirada, pra um dedo de prosa que sempre girava em torno do mesmo assunto: Rosa e a saudade que ele sentia.

Numa quarta-feira, estranhei as janelas abertas! Fui entrando na casa como sempre fazia, e confesso: com o coração apertado por conta de uma sensação estranha; parece que eu já sabia. A cena foi dessas de arrepiar: a casa toda arrumada, a mesa posta, café recém coado, pão, manteiga, queijo, rosas sobre a mesa, até um pratinho de biscoitos de nata, tal qual Rosa fazia, e Seu Juvenal sentado em sua cadeira de banho tomado, com um sorriso no rosto, olhos fechados, morto. Era como se Rosa tivesse vindo buscá-lo. Mais que depressa liguei para os filhos... Meu compadre e sua irmã chorando muito diziam: Naldo, neste fim de semana não pudemos ir até aí, nem levar as netas para abraçá-lo.

Até hoje fico pensando: Rosa veio buscá-lo!

Ontem, estava eu aqui no computador, pesquisando no eMule o Mestre Pixinguinha, e achei esta preciosidade, ROSA, com o Paulo Moura. Foi então que nasceu o poema, que a bem da verdade fala de uma história de amor bonita e sem dúvida alguma, espiritualmente muito forte, pois seja onde for que eles estiverem, tenho a certeza de que estarão juntos.