Thursday, June 21, 2007

ESTRANHO LABIRINTO



NALDOVELHO

Vocês percebem o que eu digo?
Vou tentar ser mais claro!

Fios entrelaçados, tecidos,
alguns deles amarrotados,
outros, guardados, amarelecidos...
Há aqueles, pelo uso, puídos,
se tentarem consertar; cerzidos.
Tramas, dramas, coisas do nosso umbigo!

Ainda não fui claro?
Vou tentar de novo!
Caminhos, trilhas, atalhos,
lugares ermos, distantes,
ruas que parecem desertas,
esquinas, escolhas incertas,
becos sem saída, enganos!
Começar tudo outra vez.

Janelas, têm dias, fechadas,
em outros, escancaradas;
chaves, nem sei de quê portas,
mas não importa sabê-las,
pois sempre serei um estranho,
que quando tenta entrar na conversa
alguém logo pergunta:
o que você quer de nós?

Fios entrelaçados, destinos,
escolhas equivocadas, atalhos,
ruas de uma cidade deserta.
Ando por aqui já faz um tempo,
vivo tentando escrever poemas,
que digam ao coração das pessoas
sobre o labirinto em que vivemos, estranhos...
Melhor ter a mão um novelo de lã,
marcar caminhos trilhados,
não repetir os enganos,
para que possamos sair daqui.

Algo do que lhes disse é familiar?
Não?
Estranho...
Muito estranho!

VEM




NALDOVELHO E JOANA PONS

Vem!
Vem dormir e sonhar os sonhos meus,
acordar em brancos lençóis,
amanhecer poema de amor
e em meus braços apaziguar sua dor.

Vem!
Faz do meu corpo a sua morada,
dos meus desejos o alimento preciso
e dos meus olhos o refrigério da alma,
pois serei sua amada, infinitamente sua!

Vem!
E traz o carinho das mãos delicadas
a explorar caminhos, dobras, passagens,
partes sedentas e ainda assim molhadas,
e deixa em minha pele suas marcas tatuadas.

Vem!
E faz meu coração bater acelerado,
traz também o seu cheiro e o seu olhar abusado,
a saborear o amor que dedico pleno,
e faz de mim, algo que seja só seu.

POEMA DE AMOR NÃO ESCRITO



NALDOVELHO

Linhas traçadas
coexistências embaraçadas,
palavras entrelaçadas,
quarta gaveta, lado esquerdo do peito.
Poema de amor proscrito
entre o poeta e a meretriz.
Um bolero arrastado,
a compor tristemente o cenário,
uma garrafa de vinho tinto,
outra de Martine Bianco,
ambas, pra baixo da metade.
Marcas de batom no corpo,
na camisa e no copo.
Cinco horas da manhã!
O garçom sinaliza nervoso,
já é madrugada, faz frio lá fora,
peço a conta e percebo em teus olhos
um até breve, até quando?
Agora, já passam das seis!
Manhã nublada de maio,
um gole de café requentado,
não dá pra esquecer o cigarro,
nem o poema de amor proscrito,
banido antes mesmo
de ter sido escrito.
Melhor ir pra casa e dormir.

Friday, June 01, 2007

ESTIAGEM ESTRANHA DA ALMA



NALDOVELHO

Há dias em que a poesia,
como água, escorre entre os dedos
e em silêncio recusa os enredos,
gasturas que a vida nos traz.

Dias de calmaria,
nascidos na indiferença dos tolos,
alimentados pela inutilidade das horas,
plenos de nem sei bem o porquê?

Há dias em que o coração
desgastado pela dança do tempo,
sussurra frases vazias
e já nem quer saber até quando.

Dias de recolhimento e clausura,
por achar que depois daquela porta
as pessoas anestesiadas não percebem
a dor que lhes fustiga a alma.

Há dias que acontecem nublados,
ausência de chuva ou de vento,
onde até o sol vai-se embora
antes do entardecer.

Dias e noites vazias
e o coração do poeta nem se importa,
já não quer saber até quando,
ou se amanhã o sol vai nascer.

Há dias... melhor esquecê-los!
Dias que, na verdade, não contam!
Estiagem estranha de um louco
que de repente recusa o sonho.

Há dias em que a poesia,
como água, inunda o poeta,
que mesmo contra sua vontade,
sobrevive... só não sei até quando,
só não sei bem o porquê!

Friday, May 25, 2007

GOSTO DE GOSTAR DESTAS COISAS



NALDOVELHO

Gosto de dias de chuva,
de preferência os de outono,
cheiro de terra molhada,
vento frio varrendo a cidade,
final de maio e eu suponho,
que continue a chover amanhã.

Gosto de café com conhaque,
cigarrilhas que sejam cubanas,
violoncelo, violino e piano,
música visceral e profana,
bons livros de cabeceira:
Cecília, Drumond e Bandeira.

Gosto de madrugadas desertas
e de saber que embora me doa,
sensibilidade deixou de presente,
coisas preciosas, sagradas,
lembranças, segredos, guardados,
pensamentos, palavras, poemas.

Gosto de gostar destas coisas,
por certo na solidão do meu quarto,
medida exata de nostalgia,
necessária dose de saudade,
janelas e portas sempre abertas
muita poesia no ar.

Saturday, May 19, 2007

MANIA DE POETA



NALDOVELHO

Vontade de esculpir versos,
aparar arestas, excessos,
cortar palavras, algumas,
polir outras, em suma:
dar brilho aos significados.

Mania de poeta
que teima em dissolver lágrimas,
faz tempo, cristalizadas,
ao revelar segredos, guardados,
ao desfazer em nós os nós.

Mania de curandeiro
que cisma em cicatrizar feridas,
que cura entorses, contraturas, gasturas,
gastrite, artrite, colite,
e se duvidar, espinhela caída.

Aperto no peito, então?
Logo-logo, respiração aliviada,
pois toda a aflição e tortura,
vira tema de poema,
no papel, exorcizadas.

Mania de feiticeiro,
mestre em desmanchar teias,
tramas, dramas, coisa feita e ardida
paixões mal resolvidas,
armadilhas da solidão.

Vontade de esculpir versos,
de deixar janelas abertas,
terapeutas da alma que implora,
por caminhos,clareiras, enredos,
que tragam paz ao coração.

Sunday, May 13, 2007

AO AMOR QUE EU NÃO VIVI



NALDOVELHO

Acordar sonolento,
tua perna sobre a minha
e uma tênue luz invasora
a revelar-nos despertos.
Luz do sol, enxerida,
a bisbilhotar nossas vidas.
Manhã cedo de domingo,
preguiçosos confessos.

Queria que a semana
fosse repleta de domingos,
que não houvesse segundas-feiras.
É bom que aqui estejas, por inteira,
aninhada e tão perto.
Já são quase dez horas
e ontem à noite, eu confesso:
fiquei rindo a toa,
já faz tanto tempo.

Melhor fazer um café,
o mês é frio de outono,
já não existe abandono,
já não existem esperas
e embora passados muitos anos,
teu cheiro ainda impera.

Lembra daquele poema
e da eternidade que ele revela?
Pois é! Ainda escuto a mesma música,
Michel Legrand ao piano
e Barbara Streisand ainda questiona:
What are you doing the rest of your life?
Melhor permanecer em meus sonhos.

Thursday, May 10, 2007

PARTIDAS E CHEGADAS



NALDOVELHO

Tenho olhos de perceber
que entre os versos que afloram,
existe dor de partida
que se fez sem despedida.
Quem ontem estava tão perto,
nunca mais se viu por aqui

Tenho olhos de perceber
que apesar do sorriso nos olhos,
existe a lágrima escondida,
chorada pra dentro, doída,
por aqueles que não viveram o sonho
de semear o trigo, colher o pão,
abraçar o amigo e fazer do inimigo um irmão.

Tenho olhos de perceber
que além do ódio dos loucos
a derramar o sangue de muitos,
dói o silêncio dos tolos
e a palavra desencontrada
daqueles que pensam que enxergam,
mas nada conseguem ver.

Tenho olhos de perceber
que entre partidas e chegadas,
reside a verdade dos sábios
materializada na voz dos poetas,
há quem diga que sejam profetas,
anunciando um novo amanhecer.

Wednesday, May 02, 2007

ESTRANHO

NALDOVELHO

Ando por estas ruas como se fosse um estranho.
Tropeço em meio-fios, esbarro em árvores,
confundo esquinas, escorrego e caio
e sem saída num beco escuro, penso:
melhor voltar, recomeçar.

Às vezes converso com as sombras,
pois mal consigo perceber o rosto das pessoas
e assusto-me com o silêncio dos que passam
e não percebem num poema, um detalhe, que seja!

Já não colho flores nos jardins desta cidade,
e os parques desconhecem o riso puro das crianças.
No céu, carregado de nuvens, prenúncio de chuva,
vento frio, muita umidade, pouca visibilidade.

Ando sozinho por estas ruas, já faz tempo.
Busco um sorriso, um olhar, quem sabe?
Uma lágrima de saudade, um abraço de chegada,
uma palavra, um verso, quase nada!

Ao longe percebo pássaros em revoada,
sinal de vida no horizonte, ainda que distante.
Nos templos, portas impedem a minha entrada
e aqueles que se importam, nada podem, aprisionados.

E mais um tropeço, outro beco sem saída.
Já não escrevo mais poemas, desencravo-os,
como se fossem espinhos, ou cacos,
espetados por todo o corpo.

Olhos para os lados e pouco vejo.
Dia nublado, prenúncio de chuva,
tarde cinzenta de outono,
vento frio, pouca visibilidade.

Tuesday, May 01, 2007

ROSA



NALDOVELHO

Esta sensação estranha...
Luz do abajur, faz tempo, queimada,
assim, acesa, do nada?!
A janela do quarto
que teimava em permanecer fechada,
hoje, abusadamente, escancarada!
E este perfume?
Acho que estou ficando louco.

Na cozinha, pratos e talheres lavados.
A comida esquecida no forno: sumiu!
Na sala, móveis arrumados,
tudo limpo, cheiro de alecrim.
Flores em cima da mesa?
Absurdo!

Na estante, livros arrumados,
Cds guardados,
cada um em seu lugar.
Uma samambaia chorona
pendurada no canto da sala...
Não consigo entender.

Pássaros atrevidos
cantam em minha janela,
parece primavera,
mas é abril, outono!

Acho que é um sonho,
pois acabo de escutar sua voz...
Mas como?

Rosa, porque você partiu?


O poema ROSA é baseado em fatos reais, acontecidos, já faz algum tempo.

Conheci um casal, quando mais jovem, Seu Juvenal e Dona Rosa. Eram muito felizes. Tinham dois filhos, um deles, hoje, meu compadre, e a história de amor que vivenciaram foi dessas que a gente só vê em novela, construída em cima de muita luta, muito sofrimento e, principalmente, muita coragem, pois tiveram que romper com todos os laços para poderem ficar juntos. Eram amantíssimos, o carinho e a ternura eram constantes, a ponto de transformar a casa onde viviam, num templo de paz e amor onde adorávamos ficar. Um dia, assim, sem mais nem menos, aos 65 anos, Rosa morreu, num desses infartos fulminantes que sem o menor aviso lhe acometeu.

Daquele dia em diante, Seu Juvenal, homem forte e alegre, numa sombra triste e sem vida se transformou. Dava pena de ver! A casa, antes, um brilho, agora largada, móveis empoeirados, o jardim morto e o velho, costumeiramente de muitas palavras, virou uma pessoa soturna e amargurada. Tomar banho, então, muitas vezes nem tomava! Entregou-se em vida, arrasado pela falta que Rosa lhe fazia.

Seus dois filhos, já casados, e seus netos, toda a semana, iam lá, limpavam tudo, até banho o obrigavam a tomar. Meu compadre sempre relutou em colocá-lo num asilo e o velho, já com 70 anos, não admitia a idéia de ter uma empregada, ou mesmo de ir morar com qualquer um dos filhos, e assim dizia: um dia ela virá me buscar.

Todas as manhãs, em direção ao trabalho, quando por lá passava, levava pão fresquinho e um litro de leite. Janelas sempre fechadas e Seu Juvenal, nem café havia tomado. No meio daquela bagunça, ia eu pro fogão, passava um café bem forte, sentávamos na sala, ainda que empoeirada, pra um dedo de prosa que sempre girava em torno do mesmo assunto: Rosa e a saudade que ele sentia.

Numa quarta-feira, estranhei as janelas abertas! Fui entrando na casa como sempre fazia, e confesso: com o coração apertado por conta de uma sensação estranha; parece que eu já sabia. A cena foi dessas de arrepiar: a casa toda arrumada, a mesa posta, café recém coado, pão, manteiga, queijo, rosas sobre a mesa, até um pratinho de biscoitos de nata, tal qual Rosa fazia, e Seu Juvenal sentado em sua cadeira de banho tomado, com um sorriso no rosto, olhos fechados, morto. Era como se Rosa tivesse vindo buscá-lo. Mais que depressa liguei para os filhos... Meu compadre e sua irmã chorando muito diziam: Naldo, neste fim de semana não pudemos ir até aí, nem levar as netas para abraçá-lo.

Até hoje fico pensando: Rosa veio buscá-lo!

Ontem, estava eu aqui no computador, pesquisando no eMule o Mestre Pixinguinha, e achei esta preciosidade, ROSA, com o Paulo Moura. Foi então que nasceu o poema, que a bem da verdade fala de uma história de amor bonita e sem dúvida alguma, espiritualmente muito forte, pois seja onde for que eles estiverem, tenho a certeza de que estarão juntos.

Sunday, April 15, 2007

POR ONDE ANDARÁ O POETA?



NALDOVELHO

Por onde andará o poeta
quando ele de mim se ausenta?
Quais caminhos ele insanamente percorre?
Com quais enredos atrevidamente se envolve?
Quais sementes ele trará para os versos?
Quantas histórias em sua memória,
quantas vivências assimiladas,
quantas vertentes por ele exploradas?
Por onde andará o poeta
quando ele de mim se ausenta?
Por mais que eu tente não consigo imaginar,
por tão limitada à visão do mortal que questiona,
a ilimitada vontade do imortal que impulsiona,
por onde andará o poeta
quando ele de mim se ausenta?
Será que por abismos trevosos?
Será que por paraísos perdidos?
Quantos amores terão suas marcas?
Quanta saudade existirá em seu peito?
Quanto do homem que hoje existe
terá sido construído a partir dos seus sonhos?
Por onde andará o poeta que vez por outra me habita?

TIRA O ESPINHO DA FERIDA



NALDOVELHO

Quantas coisas tortas, loucas,
quantas pontas frouxas, soltas,
quantos barcos a deriva,
quantos becos sem saída,
quantas trilhas proibidas.
Nos atalhos desta vida
tens o dedo na ferida,
alucinam-me os teus ais.
Afiadas farpas nas entranhas,
se tu choras, eu me assanho,
quantas lágrimas, quanta manha,
quantas noites de insônia,
quantos sonhos desconexos
pela beira do abismo,
tens a perda dos sentidos,
desesperam-me os teus ais.
Versos cheios de vergonha,
quantos rios, quantos cios,
heresia brota insana,
corredeiras tão estranhas,
vê se esconde esta peçonha,
vê se abre esta janela,
vê se deixa de besteira,
tira o espinho da ferida,
dilaceram-me os teus ais!

Saturday, April 14, 2007

EM CIMA DA MESA



NALDOVELHO

As portas, os trincos, as trancas, tramelas,
janelas fechadas, carências, esperas,
fiquei tão sozinho, estranha quimera.
Junto ao abismo construí o meu ninho,
maresia que rola corrói as entranhas
e o vento que bate apaga a chama.
Nostalgia tamanha, incomoda e arranha.
O som de um piano, harmonia de enganos,
dissonâncias que a vida deixou de presente,
ainda as guardo comigo, todas latentes.
Cortina entreaberta, penumbra ambiente,
o rádio ligado, melodia estranha,
um poema com versos inquietos, profanos.
A campainha que toca, provável engano.
Faz tempo eu mudei, não avisei a ninguém!
Vivo trancado, só que ainda não sei.
Do caminho, passagem, perdi minha chave!
As lágrimas que eu tenho, conservo-as acesas,
e os muitos guardados revelam tristezas,
e os muitos poemas testemunham a cena.
Testamento que eu deixo em cima da mesa.

Saturday, April 07, 2007

ESTRANHO RITUAL



NALDOVELHO

Fio, pavio, chama...
Velas acesas espalhadas pelo quarto.
Roupas amarrotadas amontoadas num canto.
Na mesa de cabeceira o retrato dela.
Na cômoda, perto da janela,
a imagem do um santo:
São Sebastião do Rio de Janeiro.
Em volta do pescoço, cordão e crucifixo
e um olhar perdido, voltado para a janela,
percebe sombras, ruas, noites, esperas.
Um perfume suave toma conta do ambiente.
Uma vitrola antiga toca um disco da Gal.
Baby! Te amo, te amo, te amo.
O tecido esgarçado, apesar de cerzido,
mostra uma história com muitos desencantos.
Dor de ferida que corrói as entranhas.
Uma nostalgia estranha toma conta das horas
e as velas permanecem acesas.
Muitas sombras passeiam pelo quarto.
Estranho ritual!
Saudade, nostalgia, desencanto,
tudo regado à aguardente...
Gal ainda canta: Força Estranha!
Estranho ritual.
Fio, pavio, chama...
Velas acesas incendeiam o quarto.

Friday, April 06, 2007

REVELAÇÕES


Arte: ANNA BARROS - ENIGMA

NALDOVELHO

Letras esquisitas, destrambelhadas, proscritas,
constroem poemas rebelados, estranhos.
São gritos de clausura, loucura, delírio,
imagens insanas reveladas em meus sonhos.
Poemas inquietos, sementes urgentes,
letras ardidas, molhadas, indecentes,
gotejam impunemente e revelam segredos.
Revelam o amor que eu trago escondido,
revelam o esconderijo, o refúgio, o abrigo,
revelam janelas, faz tempo, fechadas
e portas convenientemente trancadas.
Revelam ventania que venta aqui dentro,
revelam calmaria que reina lá fora
e a serventia dos versos que afloram.
Revelam a dor que existe em meu corpo
e o desconforto, lado esquerdo do peito,
revelam o orgasmo dolorido, contido,
revelam seu cheiro, ainda o tenho em meus dedos,
revelam marcas, cicatrizes, tatuagens,
equivocadas escolhas, caminhos, bobagens,
distâncias enormes, esperas, saudades...
Revelam um inverno, chuva fina e insistente,
apesar do outono desobediente lá fora,
revelam que a poesia transborda, derrama,
ainda quê, em letras promíscuas, profanas.


Wednesday, April 04, 2007

ÀS MULHERES GUERREIRAS



NALDOVELHO

Sei da fonte de onde brota a guerreira,
sei da coragem que transpira mulher,
sei que nos campos de batalha
és sempre a primeira a guiar teu povo,
a perceber ciladas, a derrubar barreiras,
para que possam seguir sempre em frente.

Sei do mel que escorre dos teus olhos,
e da generosidade amiga do teu colo,
sei que és palavra abrigo às tormentas,
e que no furor das batalhas,
não trazes nas mãos sangue inocente.
Conheço tua têmpera, sei também que trazes
a força e a justeza dos puros de coração.
Sei dos teus sonhos e do quanto eles podem curar.

E ainda que haja a espera, a distância e a perda,
sei que a danada da saudade
não será capaz de te matar,
pois tens a benção dos ungidos,
dos que conhecem os segredos das águas,
do fogo, da pedra e do ar.

Sei que trazes nas mãos as sementes
da Paz que ainda há de chegar.

Tuesday, April 03, 2007

AO ESCREVER POEMAS


ARTE: JOANA ARA PONS

NALDOVELHO

Tenho a mão pesada ao escrever poemas,
abro, no papel, profundos sulcos, tipo, leito de um rio,
por onde navegam palavras, pensamentos, histórias,
coisas colhidas nas trilhas desta vida.

Não acaricio as palavras, espremo-as,
até ter delas seu sumo, seus significados.
Uso cores agressivas, por vezes exuberantes,
quando tento passar uma mensagem.

Quando falo de saudade prefiro o cinza,
nostalgia navega em branco e preto
e a revolta em águas barrentas, sempre!
Estou mais para a realidade, a vida me fez assim!

Tenho a mão pesada aos escrever poemas,
machuco o papel, até perceber que ali existe
sangue, suor, saliva, sentimento,
não sei escrever sem expor feridas.

Parir versos é remexer nas entranhas,
é cutucar cicatrizes, fazê-las ardidas,
só assim o poema sobrevive
e eu consigo exorcizar minha dor.

BICHO HOMEM



NALDOVELHO

Cada ponto, cada pedra,
cada trecho do caminho,
tem ciladas, tem espinhos,
tem o cheiro da incerteza.
Lua cheia quando nasce,
crescem garras, crescem presas,
e eu só sei que o bicho homem
ainda fere se tem medo,
ainda mata se tem fome.

Toda história tem segredos,
toda a trama tem mistérios,
marcas, rastros, seus relevos,
tem fissuras, cicatrizes.
Mar revolto quando chega,
embarcação fica a deriva,
e eu só sei que o bicho homem
ainda chora se tem sede,
ainda foge dos seus sonhos.

Cada gota do meu sangue,
cada gesto de ternura
tem um pouco de loucura
e tem por traz a sede e a fome.
Ventania quando chega,
vem trazendo tempestade,
e eu só sei que o bicho homem,
se troveja, se esconde,
e rasteja e rasteja...
já nem sabe mais seu nome.

Sunday, April 01, 2007

O QUE VOCÊ VAI FAZER DO RESTO DE SUA VIDA



NALDOVELHO

Na força dos ventos, outono dos dias,
um murmúrio, um sussurro, um recado dos longes,
um segredo que a vida escondeu já faz tempo.
Melodia que insiste, dolorida e tão plena,
muito mais que um poema, na verdade um romance,
sem dia e hora para terminar.
Na força das águas, uma voz surpreende,
pensamentos, verdades, sentimentos perenes,
uma história que a vida não ousou consumar.
A lembrança de um beijo, cabelos, fios, tão finos,
e um sorriso abusado num olhar contundente.
Ainda bem que é um sonho, pois a pele ainda é fina,
volta e meia costuma sangrar.
Na força de um sonho, melodia que arde, arranha e incomoda,
uma pergunta que o tempo não ousou responder.
E por mais que nos doa, Della Reese ainda soa,
Michel Legrand ao piano:
O QUE VOCÊ VAI FAZER DO RESTO DA SUA VIDA?
Melhor nem pensar!

Wednesday, March 28, 2007

ERA UMA VEZ UM QUARTO



NALDOVELHO

Era uma vez um quarto e dentro dele, na cabeceira da cama, uma mesa e em cima da mesa uma jarra e um copo, cheios d’água. E assim felizes, tranqüilos e integrados, como se tivessem sido feitos uns para o outro: a água na jarra e no copo.

Foi num dia qualquer de maio quando alguém desastrado passava, ao esbarrar na mesa os derrubou. O copo e a jarra pelo chão aos cacos, e a água no tapete derramada.

Era uma vez a poeira que pelas frestas da janela, invadiu todo quarto e ao tapete encharcado como uma intrusa se entranhou. A água, antes concubina do copo, agora ao tapete amasiada, à poeira também se integrou. Desse triângulo estranho surgiu um filho bastardo que alguém por pura piedade, de mofo, batizou.

E foi nesse cenário tristonho que a água, antes cristalina, refrescante e faceira, em umidade se transformou. E que junto ao tapete, à poeira, ao mofo, à jarra e ao copo, hoje em cacos, espalhados pelo quarto, foi o que restou!

Era uma vez um quarto: vazio e abandonado, que vez por outra o dono entrava com desconsolo, naquele cenário tristonho de cama ainda desfeita, lençóis sujos pelo chão espalhados, travesseiro empoeirado num canto jogado, um horror!

Certa feita tão descuidado, em dia de chuva, apressado e com os pés sujos de lama, mais tristeza ao quarto levou.

Acho que quase um ano se passou. Foi num dia qualquer de setembro, a porta se abriu e alguém diferente entrou. Olhou para aquele cenário e chorou! Abriu a janela depressa para o sol poder tomar conta, varreu a poeira e os cacos, tirou do tapete o mofo, e nos livrou da lama no quarto. Trocou travesseiros e lençóis, depois se aconchegou em paz no silêncio que agora reinavam, e feliz, realizada, deitou e descansou.

Foi num dia qualquer de novembro, ao certo, já não me lembro! Curioso fui ver como estava o quarto, e dentro dele não mais encontrei a solidão. Encontrei a cama arrumada e na cabeceira da cama uma mesa, e em cima da mesa uma jarra e um copo, e dentro deles, água limpa, fresca e cristalina. Olhei pela janela e vi lá fora perdidos, a lama e a poeira.

Dizem que o mofo, coitado! Pelo sol ferido de morte, não resistiu e morreu.

E os sapatos? Favor deixar na porta, é para manter limpo e saudável o interior.