Monday, March 26, 2007

ÁGUAS DE MARÇO


Arte: Ana França

NALDOVELHO

Águas de março inundam a cidade,
ondas do mar fustigam a areia,
as folhas das árvores se apressam e caem,
horizonte nublado, prenúncio de vento.

Urgente é o poema que eu trago em meus olhos.
O cheiro de terra molhada me inspira,
preguiça danada toma conta das horas
e haja sentimento pra matar minha fome.

Uma certa maresia domina o ambiente,
praia deserta, muita magia!

Quem disse que eu não gosto de sentir nostalgia?
É ela que antecede o aconchego do inverno,
ficar aninhado, protegido em seu colo,
tomar um bom vinho, fumar um cigarro,
quem sabe um conhaque flambado, no ponto?

A música que eu sinto, brota feito nascente
e a tela que eu pinto, jorra em cores tão quentes.
Bom dia outono, que bom que você veio!
Trazendo em seus braços um belo presente,
sensibilidade emergindo de dentro de mim
.

Friday, March 23, 2007

DEUS SABE



NALDOVELHO

Que existam sempre lágrimas a escorrer dos nossos olhos,
pois elas são o testemunho de nossas sensibilidades,
e na verdade, palavras em seu nascedouro,
que quando amadurecidas se farão poema.

Que existam sempre dores em nossas almas,
pois que elas nos fortalecem e nos transformam,
fazendo-nos mais próximos, mais dignos,
para quem sabe um dia curar nossos irmãos?

Que exista sempre o conflito em nossos caminhos,
terapeutas que somos de tantos destinos,
é nossa sina caminhar por entre escombros,
amparar, o ferido, o desesperançado e até o inimigo.

Talvez seja esta a nossa missão;
compreender para que não seja necessário o perdão,
semear o trigo, purificar as águas, descortinar o sagrado,
amansar tempestades e alquimizar a fúria dos tempos.

Pois quando o ódio cegar toda a terra,
não nos deterá o sangue e a guerra,
continuaremos, apesar de sofridos.
É nosso ofício acreditar no amanhã.

Deus sabe: somos seus filhos, suas sementes...
Somos a redenção!

Sunday, March 18, 2007

VERSOS ENLOUQUECIDOS


Arte: MATÓ - Turbulência em Vermelho

NALDOVELHO

Não quero o verbo amarelado
em versos de mel encharcados,
prefiro os de vinho tinto,
rascantes e embriagados,
por madrugadas insones,
ruas de uma cidade deserta,
ou então os sujos de sangue,
ardidos e amarrotados.

Não quero o verbo perfeito
em versos bem lapidados,
prefiro os cheios de arestas
que incomodem minhas entranhas,
inquietude bendita, já faz tantos anos,
farpas, cacos de vidro,
espinhos espetados, doídos,
que eu macero e transformo em poemas.

Não quero flores perfumes
pássaros enamorados, queixumes,
prefiro versos enlouquecidos,
Bill Evans num piano perverso
e garrafa inteira de absinto,
pois das suas garras, eu ainda me lembro!
deixaram cicatrizes medalhas,
volta e meia costumam sangrar.

Wednesday, March 14, 2007

AUTOFAGIA



NALDOVELHO

Lapidar frases,
trazer o tempo certo a cada verso,
viajar por metáforas, cultivar imagens,
descobrir a palavra exata
e sempre numa nova abordagem...
Ofício de poeta!

E sempre com muito cuidado,
pois certas palavras são promíscuas,
se prestam a muitos significados.


O resto?
A emoção, o conteúdo?
Coisa de ser humano!

O poema?
Filho bastardo desta grande putaria.
Santa promiscuidade:
o poeta a devorar o homem,
e o homem a se alimentar do poema.

Autofagia!

Tuesday, March 06, 2007

HEI DE MORRER JOVEM



NALDOVELHO

Hei de morrer jovem,
na flor dos nem sei quanto anos,
com as costas arqueadas
pelo peso de uma vida,
e as pernas enfraquecidas
por trilhas, atalhos, estradas.

Hei de morrer jovem,
na flor dos meus desenganos,
com os olhos, assim, embaçados
por conta do quanto enxerguei
e a pele toda enrugada
pelo muito que semeei.

Hei de morrer certamente,
ainda que permaneçam os espinhos,
pois embora não te pareça,
jovem ainda estarei!
Pois esta foi minha escolha,
meu rito sagrado, minha lei.

Hei de morrer qualquer dia,
antes que seja tarde!
Mas só quando acabarem os poemas,
e tomara Deus quê: docemente!
Pois por mais que eu tenha pecado,
Ele sabe o quanto eu amei.

Saturday, March 03, 2007

ÀS MULHERES GUERREIRAS



NALDOVELHO

Sei da fonte de onde brota a guerreira,
sei da coragem que transpira mulher,
sei que nos campos de batalha
és sempre a primeira a guiar teu povo,
a perceber ciladas, a derrubar barreiras,
para que possamos seguir sempre em frente.

Sei do mel que escorre dos teus olhos,
e da generosidade amiga do teu colo,
sei que és palavra abrigo às tormentas,
e que no furor das batalhas,
não trazes nas mãos, sangue inocente.
Conheço tua têmpera, sei também que trazes
a força e a justeza dos puros de coração.
Sei dos teus sonhos e do quanto eles podem curar.

E ainda que haja a espera, a distância e a perda,
sei que a danada da saudade
não será capaz de te matar,
pois tens a benção dos ungidos,
dos que conhecem os segredos das águas,
do fogo, da pedra e do ar.

Sei que trazes nas mãos as sementes
da Paz que ainda há de chegar.

Wednesday, February 21, 2007

ESTAS PALAVRAS


Foto: Cesar Andrade

NALDOVELHO

Estas palavras ardem nos olhos,
toda a vez que eu as falo.

Esta palavra lágrima escorre
e inunda minhas mãos de sonhos.

Esta palavra sonho
é chama que brota inquieta,
janelas e portas abertas,
pois só assim sobrevivo a distância
e a palavra chamada saudade.
Esta palavra saudade,
arranha, inflama, é covarde,
é palavra áspera, estranha,
pois toda a vez que o vento muda
cicatriz volta a doer.

Esta palavra tempo redime,
transforma dor em poema.
Ah! Esta palavra poema...
Queria tê-la conhecido antes,
não teria perdido você.

Tuesday, February 20, 2007

SUA DOR



NALDOVELHO

Este seu jeito pétala
de rosa já sem espinhos,
esquecida em cima da mesa.
Este seu jeito frágil
de rosa mais pra vermelha,
matizes de dor e incerteza.
Lá fora o dia chora
e a palidez da tarde
não revela sua beleza.
Melhor colocá-la num jarro,
logo, logo anoitece,
quem sabe as teclas de um piano,
apaziguado o pranto,
possam amenizar sua dor?

E SE FOSSE UM DOS SEUS?



NALDOVELHO

Mistura de cores, odores, ruídos,
minha cidade transpira horrores.
Cães enlouquecidos passeiam impunemente
e nas esquinas um sorriso amarelo
não consegue esconder o desconforto,
por ruas e praças desertas,
janelas e portas fechadas
e um absurdo de lamentos:
mais um ousou e caiu!

Ousou amar seu caminho,
fazer filhos, construir uma casa,
cultivar flores sem espinhos;
cantar cantigas de roda,
andar pelas ruas sem pressa,
namorar madrugadas de insônia,
parar no sinal amarelo...
Perdeu, perdeu, perdeu!

Um corpo jogado nas ruas,
fio interrompido, loucura,
criança ainda, seis anos!
E a baba do tinhoso
espumando pra todo o lado.

Minha cidade hoje chora,
clama por justiça e se desespera,
põe rosas brancas nas janelas,
e aqueles que devem não querem,
se escondem em castelos e ignoram
a dor que consome as entranhas
e as marcas deixadas no asfalto.
Não há nada de novo nas horas!
Nada que aconteça os comove.
E se fosse um dos seus?

Sunday, February 11, 2007

REFLEXÕES TARDIAS




Dizem do poeta: ser ele um mensageiro da emoção. No que me diz respeito, o poeta é um observador privilegiado do seu tempo. Digo privilegiado por conta da sensibilidade e do poder de construir com contundência textos que possam transmitir não só sua ótica e entendimento, mas também, a visão coletiva de um tempo, levando as pessoas à reflexão.

Hoje por exemplo, eu escutei uma senhora de 58 anos de idade, no auge de sua revolta, afirmar: é preciso criar grupos de extermínio que façam justiça, ainda que à margem da lei, e eliminem de uma vez por todas esses animais que vivem a cometer tamanhas atrocidades.

Nenhum espanto! Eu, a princípio sou a favor da pena de morte. E olhem, que a fala em questão, era de uma senhora da maior dignidade, advogada e professora aposentada e pelo visto desesperançada com a justiça que é praticada neste país pelas nossas instituições.

Normalmente não costumo tocar nesses assuntos, até para não ser mal interpretado, já que tenho posturas, digamos assim, politicamente incorretas e totalmente heterodoxas. Lembro quê, quando dos escândalos ocorridos com o “Mensalão” e antes da eleição para Presidência da República, acabei por perder o convívio de alguns amigos, por minhas idéias, já que estavam querendo, e muitos ainda querem, realizar um linchamento em praça pública de todos os políticos do PT e mais do então presidente do nosso País, e eu, ao não concordar e dizer abertamente quê: em primeiro lugar deveríamos seguir os trâmites legais, dando a oportunidade de defesa aos envolvidos, e depois, que deveríamos aproveitar a oportunidade e rediscutir todo o cenário político brasileiro, incluindo aí, o PMDB, o PSDB e demais partidos que existem no Brasil. Dizia, então, que a corrupção aqui nesta terra é endêmica e vai do mais simples trabalhador até o mais alto magistrado; que os políticos que por aqui existem, foram eleitos por nós e vieram, sem exceção, do seio da nossa sociedade. Lembro até que numa pesquisa do IBOPE, quando ao serem perguntados sobre o comportamento daqueles que nos representam, aproximadamente 65 % dos entrevistados disseram que fariam o mesmo. Dizia eu, que em governos anteriores já aconteciam as barbaridades que naquele momento presenciáramos e que apenas, aqueles eram mais competentes em acobertá-las.

A mesma preocupação me assola nos dias atuais. Não sei se meus dizeres serão bem aceitos, já que o racional, sempre em mim, fala mais alto, e as pessoas, de uma maneira geral, só se posicionam quando obrigadas pelo emocional.

É preciso, urgentemente, rediscutir o nosso sistema judiciário, incluindo aí a nossa polícia, mal aparelhada, mal remunerada, e principalmente, completamente despreparada no sentido psicológico e até vocacional para o exercício de suas funções. É preciso repercutir cada vez mais a ineficiência de nosso judiciário, a morosidade dos processos por conta de um intrincado código processual e até a competência e honestidade de nossos juízes. Sei que, a grande maioria desses profissionais é da mais alta dignidade, mas é bastante claro que existem aqueles...

Outra coisa que precisa ser discutida com profundidade é o nosso código penal e o sistema existente para aplicá-lo, pois não recupera ninguém e só faz aumentar, ou aprofundar a animalidade existente. Neste ponto eu faço uma pergunta a cada um de vocês: qual a função maior do sistema? Punir e excluir da sociedade aqueles que demonstrem não merecer viver no gozo de seus direitos ou levá-los ao arrependimento pelos crimes cometidos e ressocializá-los?

Se homens condenados à reclusão por crimes bárbaros, como este perpetrado contra uma criança de seis anos, em no máximo cinco anos podem estar soltos nas ruas a cometer outros crimes, onde está a justiça? Isto sem contar que um bom advogado poderia ainda alegar que os envolvidos não tiveram a intenção de matar, apenas de roubar, e que a morte desta criança não passou de um acidente absurdo, tese esta que se aceita reduziria a gravidade do delito e conseqüentemente a pena. Já imaginaram? E mais: menores de idade envolvidos em tais delitos, têm tratamento diferenciado e bem mais cedo retornam às ruas para novos crimes. Não é este um belo cenário?

Sei não meus amigos! Lembrando a senhora favorável a criação de grupos de extermínio: quem de nós teria a coragem de empunhar uma arma e perpetrar a margem da lei a tão desejada justiça? Quem de nós tiraria a vida de um nosso semelhante, ainda que ele o merecesse? Quem de nós exige dos poderes instituídos a ética e a seriedade necessárias no trato à coisa pública? Quem de nós participa ativamente da política, porém de uma forma seria?

Somos omissos, no dia a dia, e só gritamos, demonstrando nossa revolta quando a dor bate à nossa porta ou à porta de um nosso igual. Já disse mais de uma vez que existe um doloroso processo de exclusão social aqui em nosso país, e que lamentavelmente consideramos que os direitos são iguais para os iguais, e esta é a triste verdade, sem hipocrisia! Algum de nós se preocupa com a educação e a saúde dos menos favorecidos a ponto de intervirmos e atuarmos na ausência do Estado? Quantos de nós agimos de forma a cobrar de nossos representantes atitudes mais solidárias e produtivas com relação ao nosso povo, e na ausência destas, através do nosso voto, tratamos de puni-los numa próxima eleição? Canso de ver gente que mereceria estar presa, sendo reeleita! Quantos de nós nos mexemos e cobramos de toda a sociedade, não só ao governo, um maior investimento nos áreas de educação e cultura? Chego a pensar que o mal do brasileiro é que ele pensa que vive numa eterna festa, tipo carnaval, sambalada, trio elétrico e outras coisas mais e quando uma bala perdida põe fim a uma vida, só aí nos pomos a chorar.

Hoje, a desgraça esta no ar! A morte de gente inocente, criança ainda, a dor da perda aliada a nossa sensação de impotência e a certeza da impunidade, faz-nos desesperançados. Acho que é hora de mudar!

De minha parte, apesar de não escrever muito a respeito, procuro alterar, de forma prática e dentro do meu pequeno universo de ação este estado de coisas tão nocivas que abalam nossas estruturas. Que tal fazermos uma corrente do bem?

Enquanto isto, sou favorável à pena de morte para os irrecuperáveis, sou favorável à sentenças mais pesadas aos criminosos, sou favorável à exclusão destes, até por tempo indeterminado, dependendo do crime praticado. Como sou favorável a uma postura mais saudável e menos discriminatória com relação aos menos favorecidos, àqueles que não têm os direitos iguais, e isto sem assistencialismos populistas e com atitudes sérias para o crescimento desta Nação.

Finalizando: li na manhã de hoje, que o Presidente do STF, Ministra Hellen Gracie, os representantes da CNBB, o Sr. Presidente da República e o Governador do Estado do Rio de Janeiro, emitindo suas opiniões quanto à alterações em nosso código penal e no Estatuto da criança. É importante que tenhamos a exata consciência da importância destes pensamentos, enquanto cidadãos que são, com direitos a serem respeitados, mas apenas isto! Vivemos numa democracia representativa onde o que deveria valer seria o pensamento de uma nação, que hoje se encontra refém da violência e também ao descaso de nossos representantes, o que significaria dizer: VALE O QUE PENSA O POVO SOBERANO DESTE PAÍS.

Wednesday, February 07, 2007

O NOME DA RECEITA




NALDOVELHO

Pegue um recipiente,
nem precisa ser muito grande!
Depois de untá-lo com cuidado,
deposite, nele, palavras.

Coloque primeiro a palavra amor,
adicione então a palavra tempo,
a palavra rotina e a palavra incompreensão.
Misture bem e, só depois, leve ao fogo brando.

Coloque, agora, a palavra perda
e continue a misturar até encontrar o ponto,
quando surgirão, como por encanto,
palavras outras, algumas loucas,
tal como a palavra saudade.

Algumas outras palavras servem de tempero,
e na medida certa, sem exagero,
use a palavra nostalgia,
e se achar que deve, a palavra solidão.

Despeje tudo numa bandeja
e deixe descansar a massa.
Antes de servir
é bom aparar as sobras,
este tipo de alimento
apesar de não levar fermento,
às vezes cresce em excesso
e arestas como estas,
se não eliminadas,
costumam ser amargas.

Já está pronto!
Sirva com vinho tinto,
suave, licoroso e embriagante.
Iguaria pra apurado paladar.

Esperem um pouco.
Já ia esquecendo!
o nome da receita?
Coisa mal resolvida,
mas se você quiser
pode chamar de poema.

Thursday, February 01, 2007

MEUS DEMÔNIOS



NALDOVELHO

Dragões pachorrentos
passeiam impunemente
pelo meu quarto,
preguiçosos que estão,
não vomitam mais chamas,
apenas ocupam espaço
e deixam um cheiro desagradável
de cinzas, molhadas de constrangimento,
por tamanho arrependimento,
de terem queimado quase toda a casa.
E ainda assim, eu sobrevivi.

Serpentes ameaçadoras
sibilam alegremente
e enroscadas em meu corpo
ainda têm muito veneno,
insidiosa peçonha que eu tenho,
sempre pronta a inocular mais alguém.

Um cheiro forte de ervas
toma conta do ambiente,
enquanto cães ferozes
impedem a fuga que tento,
aprisionam-me em meu quarto,
embaraçado ao meu porvir.
Um anjo conivente
a tudo assiste e sorri.
Lá fora uma lua sombria
acinzenta a madrugada.

Melhor fumar um cigarro,
tomar um conhaque e depois um Valium.
Quem sabe o pesadelo vai embora?
Rezar uma Ave Maria,
confessar meus pecados.
Quem sabe, cometer mais alguns?
Quem sabe fechar a porta do armário?
Lacrar meus guardados?
Queria poder escrever um poema,
exorcizar meus demônios.
Queria confessar que te amo,
só que depois de tanto anos,
ainda não sei como.
Queria poder morrer de distância,
de ardências, de loucura.

Uma música doída
toma conta do ambiente,
castiga os meus ouvidos,
mais um blues!

Logo, logo amanhece,
quem sabe tudo desapareça
e eu consiga dormir?

BUSCA



NALDOVELHO

Busco na força dos ventos
a semente do furacão que assola,
faz tempo, minhas entranhas
e na chuva que brota macia
as raízes da tempestade;
águas que eu teimo e choro
toda a vez que sinto saudade.
Busco no silêncio que permeia a tarde,
a razão da inquietude que eu temo
e no veneno da mais insidiosa serpente,
o remédio para a dor de uma paixão.
E no hálito quente da noite
busco matar minha sede,
gasturas herdadas de um tempo
de muita loucura e aguardente;
sangue, suor, solidão.
Busco nas madrugadas insones
o remédio pra dor que me alucina
e nas ruas repletas de sonhos
a coragem dos poetas, dos tolos,
e nos poemas que eu teimo e faço,
as chaves da minha redenção.
E ainda que nublada a cidade,
e ardida a verdade que ruge,
nada impedirá que eu me encontre,
pois cicatrizados os cortes que sangram
e convertidos os demônios que assombram;
escreverei num epitáfio a verdade:
ainda estou tão distante,
muito ainda tenho que aprender.

Sunday, January 28, 2007

DIAS NUBLADOS



NALDOVELHO

Dias nublados no mês de novembro
às vezes são tristes, doídos, sofridos,
são como partidas mal resolvidas,
lembranças guardadas de um passado perdido,
feridas persistem, latentes comigo.

Dias nublados, ainda chuvosos,
fui fechar uma porta, prendi os meus dedos,
mas a dor que eu sinto não é mais um segredo
e as lagrimas que eu choro cicatrizam feridas.

Mês de novembro, poemas paridos,
sementes lançadas em dias de vento,
vão crescer forasteiras em outros abrigos,
alguns bem distantes do meu braço amigo.

Dias nublados, não tenho fronteiras,
vou ser sempre um estranho a caminhar pela vida,
difícil jornada de um homem em desterro.

Dias nublados que eu choro sozinho,
o meu corpo cansado, reabriram as feridas,
a dor que eu sinto é o mais puro desejo
de um pouco de paz, de um colo amigo.
Alguém que me escute e me dê um abraço,
que me seque as lágrimas e quem sabe um beijo?

Já faz algum tempo, eu venci os meus medos,
já faz algum tempo que eu perdi seu sorriso.

Queria que alguém me emprestasse um lenço...
Quem sabe uma erva, um remédio bem forte?
Para curar esta dor que eu trago comigo.
Quem sabe eu possa, então, descansar?

Saturday, January 27, 2007

DIA NUBLADO



NALDOVELHO

Dia nublado, manhã chuvosa,
janelas abertas pro desassossego.
As ruas desertas, o mês é dezembro,
o telefone não toca, escrevo uma carta,
é quase um poema, é quase um lamento.
A maresia da orla invade o meu quarto,
o som de uma música, o dedilhar de um piano,
lembram tantos planos e os meus desenganos.
A campainha da porta estridente que toca,
é só o porteiro trazendo cobranças,
é só o desterro nesta cidade nublada.
Teu nome é distância, que às vezes sufoca,
teu nome é ausência, não sei se te importa?
Ainda te amo, não sei se te quero,
não sei se te espero ou me desespero,
teu nome é demora que não vai embora.
Tomar um café, fumar um cigarro.
Ligo o rádio e o que presta não toca,
Ainda bem que não toca, se não eu choro!
Melhor ir embora, melhor esquecer,
procurar outro lugar onde eu possa viver,
pois neste ambiente persiste o teu cheiro.
E o dia prossegue, e a chuva insistente,
continuo um descrente, um poeta, um tolo
que se alimenta de versos, cantigas, memórias;
que não percebe que o sol já se pôs,
vida que segue e eu não consigo te esquecer.


COISAS RARAS, PRESENTES


ARTE: CHELIN SANJUAN
NALDOVELHO

Trago em minhas mãos,
coisas raras, presentes,
essência de alfazema,
iguarias do mar,
pedras preciosas,
cristais reluzentes,
de puro brilho e pureza,
para enfeitar-te ao luar.
Trago também muita paixão
num coração destemido
por tantas e muitas escolhas,
batalhas, perdas, vitórias,
por muitos caminhos, perigos,
pela busca incessante de abrigo.
Trago o carinho dos tolos,
a inocência da criança,
a audácia dos amantes
e a verdade dos poetas,
pois minha nudez é coisa certa,
garantia de que o que eu hoje te oferto
tem a transparência das águas
e o frescor da brisa envolvente
é alimento, é fruto sadio,
colhido em terras distantes,
em tempos de andanças, errante.
Faz tempo eu procuro teus braços,
teu colo, teu corpo, um lar.

CIDADE NUBLADA



NALDOVELHO

Nas primeiras horas da manhã:
janelas abertas, nuvens compactas,
e um vento frio e abusado,
traz pra dentro do quarto
cheiro de terra molhada.
Na claridade da manhã,
chuva fina e insistente,
travesseiro em silêncio
num canto da cama, ainda desarrumada.
Nada de novo nas horas,
tudo é hoje como era antes.
Nada que mereça um poema,
uma cantiga, ou mesmo uma crônica.
O vazio dos dias, faz tempo, me persegue
e a gastura não deixa espaço para a inspiração.
Um café quente, um cigarro,
não sei até quando o pulmão agüenta...
Melhor não pensar!
Lá fora os carros que passam,
constroem com a fumaça
um quadro cinzento, estranho...
Cidade nublada, vazia de sonhos.

COMPREENSÃO



NALDOVELHO

Tracei com um compasso uma circunferência
e dentro dela semeei palavras plenas.
Cuidei que enraizassem
para que depois de frutificadas,
pudesse eu colher palavras tenras,
de suave fragrância e doce sabor.
Colhi a palavra ternura,
a palavra carinho e a palavra amor.
Passado algum tempo,
assim, como, por acaso,
percebi quê, por ali, também brotavam
apesar do cuidado e trato,
palavras ácidas, amargas, ásperas,
que por mais que eu lhes recusasse a colheita,
espalhadas pela circunferência,
formavam frases estranhas,
numa tentativa de versos,
que eu chamaria de perversos,
pois ervas daninhas que eram
teimavam em mostrar solidão.
Ainda bem que as palavras plenas,
inquietas e em espírito insurretas,
numa manhã bem clara de dezembro,
acasaladas que estavam geraram,
a palavra derradeira em meus versos,
num poema intitulado compreensão.

DEDICADO A MARIA



NALDOVELHO

Carece não Maria!
Não precisa temer pelo poeta,
ele é forte, um guerreiro, um asceta,
pois mesmo que acidentado o caminho
e ainda que siga sempre sozinho,
ele há de sobreviver.

Carece não minha amiga!
Não tema pela sanidade dos meus versos,
o poeta é um sobrevivente confesso,
um ser ungido pelo destino,
porta-voz de tantos lamentos,
de tantas paixões e sofrimentos,
um taumaturgo a curar nossa dor.

Carece não Maria!
Não tema pela dor que hoje sinto,
ela é o alimento preciso
a manter acesa a chaga
que lateja em nossas entranhas
para depois ser parida em poemas
que irão materializar o nossos sonhos.

Carece não minha amiga!
O poeta é um protegido de Maria,
um ser a buscar sempre o regresso,
pois em desterro é um andarilho
a abrir picadas, estradas
que nos sirvam na caminhada
em direção ao Pai.

Carece não Maria!
Não tema por palavras que espetam,
são teus os meus poemas,
pois o amor que hoje eu sinto,
não se contenta só com os meus versos,
até por que tu também és poema,
mulher corajosa que se desnuda inquieta,
que busca, que sofre e se move
em busca da compreensão.

Thursday, January 25, 2007

TUA MAGIA


Arte: Bruno Di Maio

NALDOVELHO

Que magia é esta que me põe do avesso?
Sequer sei se te mereço!
Só sei que me faltam pernas
e as mãos ficam suadas, trêmulas,
visão embaçada, aperto no peito e voz embargada...
Prenúncio de lágrimas, prenúncio de dor.

Que magia é esta capaz de tanto desassossego?
Que me faz sentir por dentro
uma espécie de assanhamento,
me faz perder o medo
de ousar tantos e sentidos versos,
em prosas, cantigas, poemas.

Só pode ser feitiço bem feito,
consumado em noite de lua cheia,
banhado em água de cheiro,
depois sagrado nas águas às sereias,
num tributo a Mamãe Oxum.

Magia que acende a luz em meus olhos,
que faz da madrugada uma escolha
e da visão do teu corpo um martírio:
pele branca, cheirosa e macia.

Quisera eu, nunca mais amanhecer!
Só pra ficar cativo em teus braços.
Queria poder merecer teu bem querer.