Wednesday, December 12, 2007

PREDADOR DE SI MESMO



NALDOVELHO

Dentro do quarto: curto circuito,
coito interrompido, coisa mal resolvida,
prenúncio de partida, de preferência sem despedidas.
Quem foi que disse que era para ser eterno?
O poeta? O poeta é um louco!
Abre a janela, derrama sonhos,
inquieto se entrega ao abandono,
escreve um monte de bobagens e morre.
Morre ausente de si mesmo,
morre de amor e vida,
sufocado por dor de partida,
bêbado de desenganos,
soterrado em seus escombros.
Lá fora, o tempo finge que vai embora,
anuncia ser mero observador,
ri da pretensão do poeta,
mostra que a eternidade não existe,
e diz que aquele que insiste
vira o seu próprio predador.
Dentro do quarto: poemas,
inventário dos meus estragos,
alguns perecem inacabados;
outros: pretensas tentativas
de me eternizar nas palavras...
O poeta?
O poeta é um tolo!
Prenúncio de despedida,
predador de si mesmo,
derramado em seus sonhos
pelos becos sem saída,
esquinas que ele não dobrou,
poesia que ele não ousou.

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