Friday, September 21, 2007

QUANTAS ARANHAS A TECER NOSSAS TEIAS



NALDOVELHO

Pessoas envoltas em teias, em dramas,
esquecem o caminho, se atritam nas tramas,
e choram, reclamam, escondem seus rostos,
e vão, nem sei onde, curar os seus ais.

Quanto veneno injetado em meu corpo,
o sangue anoitece e se arrasta no esgoto,
e o rio acontece, corredeiras no mangue...
Caminhos fechados, nem sei onde vou.

Volto pra teia e grito o Teu nome!
Canto um mantra, quem sabe amanheço?
Quem sabe acordo, primavera, setembro,
janelas abertas e virei beija-flor?

Wednesday, September 19, 2007

VISITAS



NALDOVELHO

O teu cheiro nas madrugadas,
pousa suavemente em minhas narinas.
Manhãs iluminadas de sonhos,
de lua aconchegada em meus braços,
de travesseiro molhado entre as pernas...
Qualquer dia desses, nem vou querer acordar.

Wednesday, August 22, 2007

O POUCO QUE EU SEI


NALDOVELHO

Sei dos caminhos que nos levam à loucura
e das trilhas, abismos, armadilhas.
Sei do sangue coagulado sobre a ferida
e da dor na cicatriz quando mexida.
Sei do inverno no silêncio do meu quarto,
e das lágrimas, quase sempre não disfarço!
Sei das ruas, vielas, esquinas desertas,
insônia insistente, madrugadas incertas.
Sei do amigo que se recusa ao abraço,
chuva ácida poluindo o riacho.
Sei dos esboços, dos rascunhos, dos sonhos,
projetos engavetados, lado esquerdo, tristonhos.
Sei do livro de contos inacabado,
faz tempo não pego, tenho medo do estrago!
Sei que o tempo tece teias estranhas,
corpo cansado, sou presa indefesa da aranha!
Sei que amanhã vou acordar setembro,
se me lembro: primavera, flores, temperatura amena!
Sei que no final deste caminho, existe um outro.
Sei da pedra, do limo, das raízes e da solidão.

Wednesday, August 01, 2007

QUANDO O RIO DERRAMA



NALDO

Há dias em que o rio derrama
e inunda todo o quarto.
Meu corpo encharcado
busca os teus braços,
e reclama!
Diz que a solidão é coisa ardida,
abre na carne profundas feridas...
Sente saudades!
De um tempo de águas tranqüilas,
quando a vida era apenas um riacho.

O QUE EU DEFENDO



NALDOVELHO

Defendo mãos dadas ao nascer do dia,
abraço apertado por conta de chegadas,
brisa quente e macia ao cair da tarde,
sorriso de criança acariciando o coração.

Noites tranqüilas, cantigas que sobrevivam,
amores aconchegados, amantes descarados,
com muito beijo na boca e de preferência sem roupa!
Lua cheia e abusada a instigar o poeta
e versos sem rima a desentranhar emoções.

Defendo mesa farta, ternura nos olhos
e o carinho do amigo promovido a irmão.
Janelas escancaradas, estradas tranqüilas,
respeito às fronteiras: com sua licença Abdul,
seja bem vindo Jacob, dá cá um abraço meu irmão!
Um copo de vinho e um pedaço de pão.

Defendo a verdade na palavra empenhada,
a compreensão como moeda de troca,
a caridade como solução derradeira:
uma vara, o anzol, e a isca,
e na beira do rio te ensinei a pescar.

Defendo a família consagrada e unida,
a palavra de Deus se bem compreendida,
o branco, o negro, o amarelo, o mestiço,
sêmen, suor, sangue novo e sagrado,
o mistério da Sua Carne reside no amor.

Defendo a palavra e seus significados,
e as diferentes escolhas, ainda que equivocadas,
os erros assumidos, a chance de repará-los,
o aprendizado, por certo, na multiplicidade de vidas,
Muitas são as moradas, e a Misericórdia é um fato,
pois somos todos os filhos da Sua imensa Luz.

Monday, July 30, 2007

PALAVRAS QUE AGONIZAM



NALDOVELHO

Palavras que agonizam
sobre uma folha de papel amassada.
A palavra FUTURO mal respira.
A palavra PERDA se arrasta
e em desespero busca a palavra SAUDADE
que abraçada à palavra NOSTALGIA
numa dobra escura do amasso,
derrama a dor pelo que já não sente.
A palavra LÁGRIMA perdeu significados,
estiagem premeditada do tempo
que transformou em pedra a mão do poeta.
A palavra ES-PE-RAN-ÇA, triturada,
e sua seiva a criar corredeiras,
trilhas aleatórias que vão dar em lugar algum.
A palavra NATUREZA, sufocada pela fumaça,
sangra acinzentado e gosmento,
já não consegue fazer brotar o verso
e exala seu odor de morte.
A palavra AMOR, pelo desuso,
ou pelo mau uso, pulverizada!
Poeira espalhada, perdeu força,
já não consegue mais nada.

Em cima da mesa,
ao lado da folha de papel amassada,
um livro aberto, ri debochado.
Nele, palavras, outras, festejam a matança.
As palavras: GUERRA, ÓDIO, RANCOR e VIOLÊNCIA
riem debochadamente.
A palavra PROGRESSO se vê como definitiva,
acha que é um sucesso,
e não há como voltar atrás.
A palavra PODER, quer fazer crer quê:
assim o é, humildemente!
O título do livro?
O HOMEM
Ah a palavra HOMEM!
Não conheço nenhuma outra
de significados tão incoerentes.

Sunday, July 08, 2007

MANDANDO NOTÍCIAS



NALDOVELHO

Por aqui: vento frio, chuva insistente,
dias de inverno, meados de julho,
escassos os versos que teimam encravados
e uma vontade imensa de te ver.
A lágrima persiste no canto do olho,
para ser mais exato, o esquerdo,
acho que por saudade, que por teimosia, só faz crescer.
Por conta disso: aperto no peito, coração afrontado,
olhar meio nublado e nem faz muito tempo
eu prometi a mim mesmo que iria te esquecer.

O maldito do cigarro continua entre os dedos,
exorciza meus medos, traz paz aparente,
mantém coisas latentes, chegadas e partidas, dor de não poder.

Os dias que passam são sempre nublados,
ainda que o sol de as caras e tente secar o molhado,
lá dentro eu temo que continue a chover.

Querias notícias? São as mesmas de antes.
Não importa que doa e que digam o contrário,
ainda estás nos guardados e nada que eu tente consegue
mudar meu bem querer.

Friday, June 29, 2007

MULHER ENLUARADA



NALDOVELHO


Procura-se uma mulher sardenta,

mais ou menos um metro e sessenta,

cabelos claros, desgrenhados,

olhos verdes e abusados.

mais sedutora que aparenta,

lábios grossos e encharcados,

doce veneno que atormenta.


Procura-se uma mulher derradeira,

com garras afiadas, guerreira,

acostumada a tecer feitiços

e não há como acabar com isto!

Diz que é a musa dos meus sonhos

e dos meus versos mais tristonhos.


Procura-se uma mulher enluarada,

pele branca e orvalhada,

envolta em fios de ternura,

desses que levam qualquer homem a loucura.

Quem souber não se arrisque, tenha juízo!

Seu ataque é rápido e preciso...

Nem queiram saber do que ela é capaz!


Thursday, June 21, 2007

ESTRANHO LABIRINTO



NALDOVELHO

Vocês percebem o que eu digo?
Vou tentar ser mais claro!

Fios entrelaçados, tecidos,
alguns deles amarrotados,
outros, guardados, amarelecidos...
Há aqueles, pelo uso, puídos,
se tentarem consertar; cerzidos.
Tramas, dramas, coisas do nosso umbigo!

Ainda não fui claro?
Vou tentar de novo!
Caminhos, trilhas, atalhos,
lugares ermos, distantes,
ruas que parecem desertas,
esquinas, escolhas incertas,
becos sem saída, enganos!
Começar tudo outra vez.

Janelas, têm dias, fechadas,
em outros, escancaradas;
chaves, nem sei de quê portas,
mas não importa sabê-las,
pois sempre serei um estranho,
que quando tenta entrar na conversa
alguém logo pergunta:
o que você quer de nós?

Fios entrelaçados, destinos,
escolhas equivocadas, atalhos,
ruas de uma cidade deserta.
Ando por aqui já faz um tempo,
vivo tentando escrever poemas,
que digam ao coração das pessoas
sobre o labirinto em que vivemos, estranhos...
Melhor ter a mão um novelo de lã,
marcar caminhos trilhados,
não repetir os enganos,
para que possamos sair daqui.

Algo do que lhes disse é familiar?
Não?
Estranho...
Muito estranho!

VEM




NALDOVELHO E JOANA PONS

Vem!
Vem dormir e sonhar os sonhos meus,
acordar em brancos lençóis,
amanhecer poema de amor
e em meus braços apaziguar sua dor.

Vem!
Faz do meu corpo a sua morada,
dos meus desejos o alimento preciso
e dos meus olhos o refrigério da alma,
pois serei sua amada, infinitamente sua!

Vem!
E traz o carinho das mãos delicadas
a explorar caminhos, dobras, passagens,
partes sedentas e ainda assim molhadas,
e deixa em minha pele suas marcas tatuadas.

Vem!
E faz meu coração bater acelerado,
traz também o seu cheiro e o seu olhar abusado,
a saborear o amor que dedico pleno,
e faz de mim, algo que seja só seu.

POEMA DE AMOR NÃO ESCRITO



NALDOVELHO

Linhas traçadas
coexistências embaraçadas,
palavras entrelaçadas,
quarta gaveta, lado esquerdo do peito.
Poema de amor proscrito
entre o poeta e a meretriz.
Um bolero arrastado,
a compor tristemente o cenário,
uma garrafa de vinho tinto,
outra de Martine Bianco,
ambas, pra baixo da metade.
Marcas de batom no corpo,
na camisa e no copo.
Cinco horas da manhã!
O garçom sinaliza nervoso,
já é madrugada, faz frio lá fora,
peço a conta e percebo em teus olhos
um até breve, até quando?
Agora, já passam das seis!
Manhã nublada de maio,
um gole de café requentado,
não dá pra esquecer o cigarro,
nem o poema de amor proscrito,
banido antes mesmo
de ter sido escrito.
Melhor ir pra casa e dormir.

Friday, June 01, 2007

ESTIAGEM ESTRANHA DA ALMA



NALDOVELHO

Há dias em que a poesia,
como água, escorre entre os dedos
e em silêncio recusa os enredos,
gasturas que a vida nos traz.

Dias de calmaria,
nascidos na indiferença dos tolos,
alimentados pela inutilidade das horas,
plenos de nem sei bem o porquê?

Há dias em que o coração
desgastado pela dança do tempo,
sussurra frases vazias
e já nem quer saber até quando.

Dias de recolhimento e clausura,
por achar que depois daquela porta
as pessoas anestesiadas não percebem
a dor que lhes fustiga a alma.

Há dias que acontecem nublados,
ausência de chuva ou de vento,
onde até o sol vai-se embora
antes do entardecer.

Dias e noites vazias
e o coração do poeta nem se importa,
já não quer saber até quando,
ou se amanhã o sol vai nascer.

Há dias... melhor esquecê-los!
Dias que, na verdade, não contam!
Estiagem estranha de um louco
que de repente recusa o sonho.

Há dias em que a poesia,
como água, inunda o poeta,
que mesmo contra sua vontade,
sobrevive... só não sei até quando,
só não sei bem o porquê!

Friday, May 25, 2007

GOSTO DE GOSTAR DESTAS COISAS



NALDOVELHO

Gosto de dias de chuva,
de preferência os de outono,
cheiro de terra molhada,
vento frio varrendo a cidade,
final de maio e eu suponho,
que continue a chover amanhã.

Gosto de café com conhaque,
cigarrilhas que sejam cubanas,
violoncelo, violino e piano,
música visceral e profana,
bons livros de cabeceira:
Cecília, Drumond e Bandeira.

Gosto de madrugadas desertas
e de saber que embora me doa,
sensibilidade deixou de presente,
coisas preciosas, sagradas,
lembranças, segredos, guardados,
pensamentos, palavras, poemas.

Gosto de gostar destas coisas,
por certo na solidão do meu quarto,
medida exata de nostalgia,
necessária dose de saudade,
janelas e portas sempre abertas
muita poesia no ar.

Saturday, May 19, 2007

MANIA DE POETA



NALDOVELHO

Vontade de esculpir versos,
aparar arestas, excessos,
cortar palavras, algumas,
polir outras, em suma:
dar brilho aos significados.

Mania de poeta
que teima em dissolver lágrimas,
faz tempo, cristalizadas,
ao revelar segredos, guardados,
ao desfazer em nós os nós.

Mania de curandeiro
que cisma em cicatrizar feridas,
que cura entorses, contraturas, gasturas,
gastrite, artrite, colite,
e se duvidar, espinhela caída.

Aperto no peito, então?
Logo-logo, respiração aliviada,
pois toda a aflição e tortura,
vira tema de poema,
no papel, exorcizadas.

Mania de feiticeiro,
mestre em desmanchar teias,
tramas, dramas, coisa feita e ardida
paixões mal resolvidas,
armadilhas da solidão.

Vontade de esculpir versos,
de deixar janelas abertas,
terapeutas da alma que implora,
por caminhos,clareiras, enredos,
que tragam paz ao coração.

Sunday, May 13, 2007

AO AMOR QUE EU NÃO VIVI



NALDOVELHO

Acordar sonolento,
tua perna sobre a minha
e uma tênue luz invasora
a revelar-nos despertos.
Luz do sol, enxerida,
a bisbilhotar nossas vidas.
Manhã cedo de domingo,
preguiçosos confessos.

Queria que a semana
fosse repleta de domingos,
que não houvesse segundas-feiras.
É bom que aqui estejas, por inteira,
aninhada e tão perto.
Já são quase dez horas
e ontem à noite, eu confesso:
fiquei rindo a toa,
já faz tanto tempo.

Melhor fazer um café,
o mês é frio de outono,
já não existe abandono,
já não existem esperas
e embora passados muitos anos,
teu cheiro ainda impera.

Lembra daquele poema
e da eternidade que ele revela?
Pois é! Ainda escuto a mesma música,
Michel Legrand ao piano
e Barbara Streisand ainda questiona:
What are you doing the rest of your life?
Melhor permanecer em meus sonhos.

Thursday, May 10, 2007

PARTIDAS E CHEGADAS



NALDOVELHO

Tenho olhos de perceber
que entre os versos que afloram,
existe dor de partida
que se fez sem despedida.
Quem ontem estava tão perto,
nunca mais se viu por aqui

Tenho olhos de perceber
que apesar do sorriso nos olhos,
existe a lágrima escondida,
chorada pra dentro, doída,
por aqueles que não viveram o sonho
de semear o trigo, colher o pão,
abraçar o amigo e fazer do inimigo um irmão.

Tenho olhos de perceber
que além do ódio dos loucos
a derramar o sangue de muitos,
dói o silêncio dos tolos
e a palavra desencontrada
daqueles que pensam que enxergam,
mas nada conseguem ver.

Tenho olhos de perceber
que entre partidas e chegadas,
reside a verdade dos sábios
materializada na voz dos poetas,
há quem diga que sejam profetas,
anunciando um novo amanhecer.

Wednesday, May 02, 2007

ESTRANHO

NALDOVELHO

Ando por estas ruas como se fosse um estranho.
Tropeço em meio-fios, esbarro em árvores,
confundo esquinas, escorrego e caio
e sem saída num beco escuro, penso:
melhor voltar, recomeçar.

Às vezes converso com as sombras,
pois mal consigo perceber o rosto das pessoas
e assusto-me com o silêncio dos que passam
e não percebem num poema, um detalhe, que seja!

Já não colho flores nos jardins desta cidade,
e os parques desconhecem o riso puro das crianças.
No céu, carregado de nuvens, prenúncio de chuva,
vento frio, muita umidade, pouca visibilidade.

Ando sozinho por estas ruas, já faz tempo.
Busco um sorriso, um olhar, quem sabe?
Uma lágrima de saudade, um abraço de chegada,
uma palavra, um verso, quase nada!

Ao longe percebo pássaros em revoada,
sinal de vida no horizonte, ainda que distante.
Nos templos, portas impedem a minha entrada
e aqueles que se importam, nada podem, aprisionados.

E mais um tropeço, outro beco sem saída.
Já não escrevo mais poemas, desencravo-os,
como se fossem espinhos, ou cacos,
espetados por todo o corpo.

Olhos para os lados e pouco vejo.
Dia nublado, prenúncio de chuva,
tarde cinzenta de outono,
vento frio, pouca visibilidade.

Tuesday, May 01, 2007

ROSA



NALDOVELHO

Esta sensação estranha...
Luz do abajur, faz tempo, queimada,
assim, acesa, do nada?!
A janela do quarto
que teimava em permanecer fechada,
hoje, abusadamente, escancarada!
E este perfume?
Acho que estou ficando louco.

Na cozinha, pratos e talheres lavados.
A comida esquecida no forno: sumiu!
Na sala, móveis arrumados,
tudo limpo, cheiro de alecrim.
Flores em cima da mesa?
Absurdo!

Na estante, livros arrumados,
Cds guardados,
cada um em seu lugar.
Uma samambaia chorona
pendurada no canto da sala...
Não consigo entender.

Pássaros atrevidos
cantam em minha janela,
parece primavera,
mas é abril, outono!

Acho que é um sonho,
pois acabo de escutar sua voz...
Mas como?

Rosa, porque você partiu?


O poema ROSA é baseado em fatos reais, acontecidos, já faz algum tempo.

Conheci um casal, quando mais jovem, Seu Juvenal e Dona Rosa. Eram muito felizes. Tinham dois filhos, um deles, hoje, meu compadre, e a história de amor que vivenciaram foi dessas que a gente só vê em novela, construída em cima de muita luta, muito sofrimento e, principalmente, muita coragem, pois tiveram que romper com todos os laços para poderem ficar juntos. Eram amantíssimos, o carinho e a ternura eram constantes, a ponto de transformar a casa onde viviam, num templo de paz e amor onde adorávamos ficar. Um dia, assim, sem mais nem menos, aos 65 anos, Rosa morreu, num desses infartos fulminantes que sem o menor aviso lhe acometeu.

Daquele dia em diante, Seu Juvenal, homem forte e alegre, numa sombra triste e sem vida se transformou. Dava pena de ver! A casa, antes, um brilho, agora largada, móveis empoeirados, o jardim morto e o velho, costumeiramente de muitas palavras, virou uma pessoa soturna e amargurada. Tomar banho, então, muitas vezes nem tomava! Entregou-se em vida, arrasado pela falta que Rosa lhe fazia.

Seus dois filhos, já casados, e seus netos, toda a semana, iam lá, limpavam tudo, até banho o obrigavam a tomar. Meu compadre sempre relutou em colocá-lo num asilo e o velho, já com 70 anos, não admitia a idéia de ter uma empregada, ou mesmo de ir morar com qualquer um dos filhos, e assim dizia: um dia ela virá me buscar.

Todas as manhãs, em direção ao trabalho, quando por lá passava, levava pão fresquinho e um litro de leite. Janelas sempre fechadas e Seu Juvenal, nem café havia tomado. No meio daquela bagunça, ia eu pro fogão, passava um café bem forte, sentávamos na sala, ainda que empoeirada, pra um dedo de prosa que sempre girava em torno do mesmo assunto: Rosa e a saudade que ele sentia.

Numa quarta-feira, estranhei as janelas abertas! Fui entrando na casa como sempre fazia, e confesso: com o coração apertado por conta de uma sensação estranha; parece que eu já sabia. A cena foi dessas de arrepiar: a casa toda arrumada, a mesa posta, café recém coado, pão, manteiga, queijo, rosas sobre a mesa, até um pratinho de biscoitos de nata, tal qual Rosa fazia, e Seu Juvenal sentado em sua cadeira de banho tomado, com um sorriso no rosto, olhos fechados, morto. Era como se Rosa tivesse vindo buscá-lo. Mais que depressa liguei para os filhos... Meu compadre e sua irmã chorando muito diziam: Naldo, neste fim de semana não pudemos ir até aí, nem levar as netas para abraçá-lo.

Até hoje fico pensando: Rosa veio buscá-lo!

Ontem, estava eu aqui no computador, pesquisando no eMule o Mestre Pixinguinha, e achei esta preciosidade, ROSA, com o Paulo Moura. Foi então que nasceu o poema, que a bem da verdade fala de uma história de amor bonita e sem dúvida alguma, espiritualmente muito forte, pois seja onde for que eles estiverem, tenho a certeza de que estarão juntos.

Sunday, April 15, 2007

POR ONDE ANDARÁ O POETA?



NALDOVELHO

Por onde andará o poeta
quando ele de mim se ausenta?
Quais caminhos ele insanamente percorre?
Com quais enredos atrevidamente se envolve?
Quais sementes ele trará para os versos?
Quantas histórias em sua memória,
quantas vivências assimiladas,
quantas vertentes por ele exploradas?
Por onde andará o poeta
quando ele de mim se ausenta?
Por mais que eu tente não consigo imaginar,
por tão limitada à visão do mortal que questiona,
a ilimitada vontade do imortal que impulsiona,
por onde andará o poeta
quando ele de mim se ausenta?
Será que por abismos trevosos?
Será que por paraísos perdidos?
Quantos amores terão suas marcas?
Quanta saudade existirá em seu peito?
Quanto do homem que hoje existe
terá sido construído a partir dos seus sonhos?
Por onde andará o poeta que vez por outra me habita?

TIRA O ESPINHO DA FERIDA



NALDOVELHO

Quantas coisas tortas, loucas,
quantas pontas frouxas, soltas,
quantos barcos a deriva,
quantos becos sem saída,
quantas trilhas proibidas.
Nos atalhos desta vida
tens o dedo na ferida,
alucinam-me os teus ais.
Afiadas farpas nas entranhas,
se tu choras, eu me assanho,
quantas lágrimas, quanta manha,
quantas noites de insônia,
quantos sonhos desconexos
pela beira do abismo,
tens a perda dos sentidos,
desesperam-me os teus ais.
Versos cheios de vergonha,
quantos rios, quantos cios,
heresia brota insana,
corredeiras tão estranhas,
vê se esconde esta peçonha,
vê se abre esta janela,
vê se deixa de besteira,
tira o espinho da ferida,
dilaceram-me os teus ais!